Era dia 23 de Março de 2020, ouvia-se o som daquelas graciosas aves, ecoavam pelo meu apartamento trazendo uma sensação campestre e primaveril, sinto o cheiro a relva recém cortada enquanto imagino uma japoneira em flor, parece tão real que até sinto o seu doce cheiro, talvez seja a nostálgica sensação que nos é intrínseca de viver na natureza, em pura liberdade e harmonia. Acordei ensonado, porém era um grande dia para mim, o meu chefe prometeu-me um aumento se cumprisse com as metas que ele me estabeleceu, mas de que forma conseguiria cumprir com os seus objectivos, era apenas um escritor sem inspiração um pássaro capturado pela própria alma impedido de voar, mas talvez escrevesse algo vazio de novo para comercializar sem sentir nada do que escrevia, apenas mais uns romances para subsistir a este sistema capitalista, cujo o “Deus dinheiro” é implacável.
Visto aquelas roupas sem padrões e sem qualquer detalhe chamativo, apenas vestir as roupas sem as seleccionar com antecedência, para o trabalho algo simples basta tentei sempre ser pragmático, saí apressadamente ainda com o café na mão a correr para apanhar aquele comboio lotado que tanto desprezava, mal entrei senti uma sensação estranha ao ver uma rapariga sentada no ultimo banco com aquele olhar distante e pensativa com os auriculares nos ouvidos e um rosto tão brilhante e sedoso, perdi a noção do tempo e a viagem foi tão aprazível que nem dei conta do tempo passar, aí tempo impiedoso porque me prendes em rotinas quando gostaria de estar um pouco mais perto daquele ser angelical pensei, porém os meus lamentos de nada servem e tive de retomar o meu caminho até ao escritório.
Pelo caminho passei junto ao jardim onde idosos falavam do seu tempo, alimentavam pássaros enquanto outros liam o jornal atentamente para saber das boas novas, falam sobre futebol e política, temas tão polémicos mas que dão sempre que falar, cumprimento todos os dias com um bom dia quase sem energia mas sempre me respondem com um sorriso no rosto, porém senti a falta de um casal que costumava estar por perto, o senhor Felipe e a dona Maria, estava apenas o senhor Felipe sentado num banco sozinho e distante do mundo, sem compreender o que se passava, sentei-me ao seu lado e perguntei o que se passava.
-Senhor Felipe o que se passa com sigo hoje, onde está a dona Maria, decidiu não vir hoje?
-Meu Jovem, hoje a minha vida perdeu o sentido, foram 50 anos de casado juntos e ontem via desfalecer nos meus braços enquanto esperava por atendimento no Hospital da Senhora Oliveira em Guimarães, foi-me dito friamente que já viveu o que já tinha vivido e que tinha de dar prioridade aos que ainda tinham uma vida pela frente. Pergunto-te para que descontei uma vida se no final de tudo falharam comigo desta forma, sou um humano como todos eles e mesmo ao verem o sofrimento da minha esposa foi negado auxilio imediato, quando foi atendida, tiraram a sua pulseira verde para uma preta e essa foi o último momento que passei com a mulher que mais amei.
As palavras foram apagadas da minha mente e o meu rosto ficou visivelmente alterado, não consegui não me sensibilizar pelo ocorrido, tentei dar forças a este homem que guerreou no ultramar, mas a maior dor que sentiu foi a que lhe acabara de ser infligida.
-Senhor Filipe, estarei sempre presente para tudo que o senhor precisar, muitos não tiveram a chance de encontrar um amor verdadeiro e o senhor viveu uma vida até ao fim ao lado de quem mais amava, é triste sentir que se perdeu uma parte da sua vida e a sua existência fica mais apagada, mas reviva os momentos na sua memória, não gostaria de ver a dona Maria assim por si, por isso não deve ficar assim por ela, faça isso em honra à memória da sua esposa.
-Eu prometi à minha esposa que estaria com ela até que a morte nos separe, cumprirei a promessa, mas nem a morte vou deixar que nos separe.
Virou costas e seguiu o seu caminho, caminhando vagarosamente com tristes passos de ânsia e desespero. Segui para o meu escritório, estava atrasado, mas não estava nem um pouco estressado, perderia um aumento, mas ajudei alguém que de uma certa forma sempre alegrou o meu dia, cheguei ao meu escritório e a recepcionista disse que o meu patrão tinha-se ausentado por isso não tinha notado o atraso que acabei por dar.
Segui para o meu escritório. Estava tudo organizado e limpo, a janela entre aberta trazia uma brisa de primavera que contrastava com o meu aromatizante de baunilha que tinha deixado dentro de uma gaveta pouco usada da minha secretária, desta vez as palavras fluíram melhor, escrevi uma forte crítica ao sistema ao sistema nacional de saúde e enviei para um jornal local para publicar o meu artigo de opinião, pensei que com o lápis e caneta poderia mudar o mundo, como eu era ingênuo, decidi tomar um café e ao chegar à entrada do escritório deparo-me com uma notícia de última hora, fiquei perplexo com o que ouvi, senti um estranho frio a percorrer o meu corpo, porque a notícia relatava um suicídio, o senhor Felipe, esperou pelo alfa pendular e atirou-se à linha levando com sigo o seu anel de casamento juntamente com o da sua esposa num colar, a minha mente retorna até o último momento que falei com ele, nem a morte os iria separar e finalmente entendi o que passou pela cabeça daquele homem que deu tudo pela pátria e a pátria tudo lhe negou.
A senhora da limpeza em tom de repreensão disse que “esta pobre alma seria condenada ao inferno para pagar os seus pecados” argumentando que o único que pode dar e tirar a vida é Deus. Nesse momento olhei no fundo dos olhos daquela mulher e disse:
-Se a senhora é tão religiosa respeite a morte deste homem, lutou pelo país em ultramar e quando precisou de apoio médico para a sua esposa, foi-lhe negado devido à avançada idade da sua esposa, este homem que nem filhos teve não lhe foi dada a oportunidade de estar com a sua família, este médico ao colocar em fila de espera uma doença tão grave ceifou a sua vida, o verdadeiro culpado pela sua morte foi aquele honrado senhor doutor que esconde com a sua bata branca as mãos cobertas de sangue. Que motivos tinha este homem para viver quando perdeu tudo que tinha, diria até que o amor foi a causa da morte e não aquele comboio tão veloz, lembre-se que julgar também é pecado na sua religião.
Ouviu-se um silencio ensurdecedor e tudo ficou estático ao ouvir as palavras proferidas por mim naquele momento de angustia extrema, dirigi-me ao meu escritório e comecei a escrever poemas, as rimas não saiam, as ideias eram confusas e estava em conflito interno, até que dou conta que são horas para a minha pausa de almoço e saio apressadamente em direcção ao restaurante do costume.
Ao entrar naquele restaurante veio um aroma de arroz de pato gratinado no forno, fiquei deliciosamente faminto, fiquei com tanta vontade de comer aquele magnifico prato que nem reparei numa música que passava de fundo, não sabia o nome de tal música que sincronizava entre os peões apressados e os vagarosos veículos que circulam pela rua em paralelo, por norma era pouco movimentada mas naquela segunda tudo era tão confuso, a poluição era absorvida pela vegetação do monte que rodeava aquela magnifica cidade mas aqueles monstros metálicos estragavam a vista que em tempos idos eram percorridos por coches e carruagens, nela andavam senhoras e senhores que vinham da cidade onde nasceu Portugal para se banharem nas aguas termais.
Reparo numa jovem menina de aparência familiar a vir na minha direcção, olho-a nos olhos e num momento de coragem pergunto.
-Por acaso já nos encontramos anteriormente? Tenho a impressão que já nos vimos em algum local.
Perguntei mesmo sabendo que a tinha visto no autocarro naquele dia, mas queria puxar assunto, mas não sabia como conseguiria tal proeza, teria pouca chance perante aquela beleza esmagadora.
-Sim, hoje de manhã dei por ela que andamos no mesmo autocarro.
-Nunca te vi por aqui, é a tua primeira vês neste emprego?
-Sim, apesar de ter vergonha sinto que este emprego é o que mais se adapta a mim, vejo muita gente nova, mas posso trabalhar ao som desta música fenomenal e nos tempos livres olho pela vitrine e vejo aquelas árvores que a cada dia se tornam mais velhas mas maiores, quero ser assim um dia mesmo que fique cheia de rugas quero crescer através do meu intelecto e do que fiz durante toda a minha vida.
-Sabias palavras para alguém que diz ser envergonhada, estás a falar tão abertamente comigo e ainda não sei o motivo.
-Algo em ti me despertou o interesse, ouvi falar que escreves de uma forma como jamais fora vista em décadas na literatura portuguesa, és um eterno apaixonado presumo.
-Presumes mal, eu nunca pude dizer que amei alguém de uma forma verdadeira, simplesmente tento escrever o que idealizo como amor perfeito, nunca amei isso te juro, não que bloqueie os meus sentimentos mas penso que nunca ninguém me quis amar, e quem amou eu não amava. O amor é tão complicado como outro sentimento, não o domino e não entendo a sua essência.
-Gostaria de falar mais contigo, mas tenho de voltar ao trabalho, o que vai desejar? Hoje temos bacalhau à Brás, frango à merendeiro e o nosso tradicional arroz de pato, com queijo gratinado no forno.
Quando dei por mim tinha perdido a fome e passei a ficar com sede de conhecimento sobre aquela misteriosa jovem, queria mostrar que estava interessado, mas bloquei e decidi agir o mais normal que o meu corpo permitiu.
-Bem, quero comer o vosso tradicional arroz de pato, para beber gostaria de beber um sumo de laranja natural, por favor fá-lo com água mineral, mas natural, não posso beber bebidas frias, não quero ficar com uma dor de garganta neste tempo tão bom de ser aproveitado ao máximo.
-Já te vou trazer tudo que pediste, aguarda só um segundo.
Enquanto aquela jovem desfilava em pequenos passos em direcção ao balcão, só pensava que queria estar mais naquela conversa, porém nada me dava desculpa para a continuar, poderia pedir algo mais, mas ganharia apenas minutos numa conversa que gostaria que durasse horas.
Passaram-se cerca de 8 minutos e gastei esse tempo a ver trabalhar aquela jovem, ia de um lado para outro para atender todo aquele fluxo de clientes, vi todos os seus passos até que veio na minha direcção, o meu corpo ficou perplexo, o meu coração bateu mais forte e a minha respiração tornou-se mais hesitante, até que pousa o prato sob a mesa e alertou-me que estava quente, colocando o copo do meu lado direito e a sorrir disse:
-Como te prometi está aqui o teu sumo natural com água mineral e natural, eu não quero ser o motivo de não conseguires viver a tua primavera intensamente.
-Jamais seria capaz de te culpar por algo tão insignificante, mas obrigado por te lembrares do meu pedido.
-Não agradeças, faço apenas o meu trabalho.
-Deixa-me pagar já, não quero te causar incomodo depois e admito que já estou um pouco com pressa, sabes como é, o tempo não para, aliás, gostaria que por vezes para-se, mas nem tudo é como queremos.
-Isso é verdade, são 9,20€.
-Tem aqui os 10€, pode ficar com o troco como gorjeta.
-Se o dinheiro agora é meu posso-o gastar da forma que bem entender certo.
Sorri e gesticulando com a cabeça afirmei:
-Claro que sim, agora ele é teu.
-Então quero-te convidar para vires tomar um café este sábado, dia 28 de Março.
Fiquei incrédulo, parecia um sonho ou talvez aquelas novelas que transmitem em horário nobre, mas estava lá ela a minha frente com aquele sorriso e um convite que eu nunca tinha recebido de alguém que tinha a mesma intenção com a pessoa, jamais o convite foi correspondido das duas partes, por uns momentos congelei, ao ver o meu desconcerto perguntou:
-Não precisas aceitar, mas pelo menos o teu nome gostaria de saber, podias-me dizer?
-Eu só aceito o teu convite se me disseres também o teu.
-O meu nome é Sara e o teu, ainda não me dissestes.
-O meu nome é Miguel.
-Nome bíblico, és um homem religioso?
-Sobre o que acredito ou não falaremos este sábado, espera por mim aqui mesmo por volta das nove da noite.
Virei costas e despedi-me com um sorriso, o meu corpo estava a explodir de emoção, mas mantive a compostura e segui para o meu escritório, ao entrar dei boa tarde ao meu patrão e fui promovido porque, sendo honesto fui bem melhor do que nas outras vezes na escrita visto que tive a inspiração fora me dada por causa de um trágico incidente. Ao pegar no lápis e no papel as palavras fluíram naturalmente, falei sobre a dualidade de sentimentos que senti naquele dia, senti felicidade e uma pura tristeza. Honestamente senti culpa de mudar de sentimento tão rápido, tudo é tão fugaz como uma centelha de luz neste universo, uma luz que percorre este vasto universo dito infinito e que a cada dia tende a diminuir, aprendi isso no futuro da pior forma.
As horas passaram rápido e foram tão produtivas, passei pelo banco, como me foi prometido aumentaram-me o salário para mais 200€, mas com metade deste dinheiro encomendei as flores mais belas para dia 24 de Março, segui para casa e estava sem fome, ao entrar de novo naquele apartamento corri para a cama, tirei a roupa e coloquei-a no cesto e tomei um banho relaxante que me fez reflectir sobre aquele dia turbulento. Depois vesti o meu pijama e atirei-me para a cama, estava estafado e adormeci, nem sequer sonhei fui apenas desligado sem saber como.
Era dia 24 de Março, acordei com aquele despertador ruidoso que insiste em tocar naquele alvoroço matinal, acordei e vesti preto, interior e exteriormente para ir aos últimos momentos daquele casal que alegrou tantos anos da minha vida sempre que fazia o mesmo caminho para o meu trabalho, aqueles que me fizeram feliz estavam sozinhos, estava apenas eu e o senhor padre, as flores que comprei chegaram e trouxeram um pouco de beleza para os seus últimos momentos, as flores traziam um estranho conforto para a minha alma, senti que ao escrever sobre a sua história de amor e a injustiça que causou o seu fim fiz um pouco de justiça, talvez com a minha caneta erga uma espada de corte afiado, a comoção social e a revolta popular.
As minhas palavras foram ditas em silencio e foram enterrados ao mesmo tempo, tal como no seu casamento, juntos e nem a própria morte separou aquele casal colocaram os seus anéis ao lado dos seus caixões e foram enterradas as memórias de uma vida, de batalhas, de sentimentos e de amor puro e verdadeiro. E agora jazem ali aquele homem que lutou em guerras e perdeu a vida para a sua maior luta interna, o seu amor pela dona Maria e uma mulher forte que batalhou uma vida para fazer o seu homem feliz, mesmo infértil construiu a sua família e criou o seu lar junto com o homem que partilhou uma vida ao seu lado.
Sai com vagarosos passos, cansado de ver dor e sofrimento, mas ao mesmo tempo ansioso pela contagem decrescente para a minha saída, nunca um café me tinha colocado tanto o coração aos saltos, ao chegar ao portão desci as escadas e dirigi-me a igreja, rezar ao meu xará, não rezei por mim e sim pela salvação daquelas pobres almas, as palavras daquela senhora da limpeza colocaram-me num profundo pensamento e não queria que pessoas tão boas fossem condenadas ao fogo do inferno.
Rezei, mas não ouvi uma palavra, não senti um sinal mas senti em contraste uma enorme paz de espírito, senti que estava renovado, talvez um anjo tivesse colocado a mão na minha cabeça para não me deixar com ela tão em baixo, quando olhamos para o chão deixamos de ver a beleza do mundo mesmo que esteja à frente dos nossos olhos. Fui ao altar e deixei uma moeda como fazia nos tempos em que andava na catequese e ouvia aquele padre a contar os feitos de Jesus Cristo, independentemente da religião temos que admitir que foi um homem com uma grande paz de espírito, tal como Mahatma Gandhi, Dalai Lama, Nelson Mandela ou até a madre Teresa de Calcutá. Sai de novo, olhando para trás vi aquela cruz tão imensa e acreditei que a piedade deste homem seria suficiente para salvar uma alma que uma seguidora sua condenou, mas que com o seu amor pela humanidade deixará permanecer junto com a alma da sua esposa.
Desci pela rua até ao jardim, tudo estava tão verdejante, a erva estava bem aparada e reluzente, gotas de água estavam ainda a cintilar de serem regadas por aquele jardineiro de meia idade que raramente fala com alguém, talvez porque há uns anos atrás ao ter um acidente ao cair numa árvore fracturou uma perna e enquanto estava a repousar de baixa, o seu médico deu-lhe recomendações mas para manter os luxos da sua esposa decidiu trabalhar mas o osso acabou por soldar mal e ficou a mancar, era um homem bem parecido mas desde que começou a mancar a sua esposa terminou a sua reacção e pediu o divórcio porque tinha medo dos comentários que as suas amigas fizessem pelo seu marido estar a mancar e mais tarde, conheceu um homem numa danceteria que a seduziu com a sua aparência juvenil, desde então nunca mais disse sequer uma palavra para desconhecidos, talvez se isolou para não ser mais magoado pelo mundo. Haviam flores de várias cores e que despertavam um misto de aprazíveis sensações, as árvores estavam como sempre, nada mudou, verdes e com folhas tão belas, mas inalcançáveis para a maioria daqueles que a vem e bem no centro havia uma fonte cheia de água, lá os pássaros bebiam daquela água cristalina e os jovens casais passeavam por lá apaixonadamente caminhando.
A direita daquele jardim vi o rosto da Sara, o coração bateu mais forte, já era hora de almoço e era uma boa desculpa para vê-la de novo, queria ouvir a sua voz mais um dia. Ao entrar não consegui identificar o cheiro que lá estava, porém sabia que a Sara ia-me informar com todo o gosto a ementa do dia. Sentei-me na mesa perto do balcão, estava ansioso para ouvir a sua voz e ver o seu rosto de perto, por isso sentei-me num sitio onde sabia que passaria várias vezes para atender os clientes que iam aparecendo. Ao chegar fiquei visivelmente feliz, ao sorrir disse:
-Olá Sara, decidi vir comer por cá gosto da comida e do atendimento.
-É bom saber que te agrada a comida e o meu atendimento.
Ao dizer estas palavras os seus olhos brilharam de uma forma que não consigo explicar por palavras, eram sem dúvida belos, aliás os mais belos que já vi em toda a minha vida, muitos diriam que era exagero já que eram comuns, castanhos, mas eu via neles o mundo inteiro e isso era a beleza que eu nunca tinha visto de qualquer forma, apenas escrita por palavras que não eram sentidas, no fundo sabia que amava tudo nela, mas os seus olhos eram especiais para mim e não compreendia porquê.
-O que se come por cá hoje?
-Hoje temos bacalhau cozido com grão ou bifinhos de frango grelhados com uma salada com os mais frescos vegetais da região.
-A segunda opção parece ser mais adequada aos meus gostos.
-Eu adoro, a salada é das melhores que já comi na vida, recomendo. E para beber?
-Uma garrafa de água mineral.
-Natural?
-Sim, assim espero.
Uma conversa tão normal, mas que marcou tanto o meu dia, algo inexplicável, paguei como de costume, o preço era o mesmo e como era habitual pedi para ficar com o troco, sorriu e depois de comer, despedi-me com o sorriso do costume. Fui trabalhar à tarde, cheguei ao escritório e a monotonia habitual alterou, na verdade tudo naquele ambiente que me era familiar foi substituído, tudo tinha mais textura, mais cor, tudo ganhou novidades até mesmo no habitual.
Escrevi sobre a beleza natural e a forma como a primavera influencia os sentimentos e tudo que está ao seu redor, primeiro escrevi sobre a terra fresca, depois escrevi sobre as sementes que são tão frágeis e que podem dar árvores tão grandes ou belas flores, os pássaros comem as sementes e no fim de tudo constroem o ninho em cima das sementes que prosperam neste mundo natural, tudo em perfeito equilibro, larvas nesta época deixam de rastejar e voam pelos campos, jardins e tudo que está à sua volta. Tempo de evolução física e espiritual, tudo em mudança e numa constante evolução, tal como todos nós sempre numa constante mudança para alcançar a perfeição que todos inconscientemente pertencemos alcançar, atingir o auge do brilho humano.
Terminou assim mais um dia de trabalho, cada vez era mais produtivo, estava no auge da minha escrita, sem dúvida estava a começar a sentir um pouco do que escrevi à uns anos atrás e estava-me a mudar aos poucos, estava a ver o mundo com mais cor e estava a amar conseguir ver para além daquilo que os olhos podem ver. Saí e despedi-me de uma forma energética porque estava ansioso para sair com a Sara, na verdade contava os dias, horas, minutos e segundos para ouvir a sua voz.
Ao sair do escritório passei vagarosamente pelo caminho do costume, os pássaros recolhiam aos seus ninhos, estava a acabar o dia mas a minha energia estava recarregada depois do que escrevi naquele dia, queria comer algo especial mas não queria ir a nenhum restaurante, queria comer algo feito por mim, algo que gostasse de comer e que pudesse fazer para gastar a minha energia, sabia o que queria e desloquei-me até a uma pequena mercearia e estava lá uma senhora que já viveu nos outros tempos à entrada sentada numa cadeira de praia a ver o movimento pelas ruas e dirigi-me à sua beira e disse:
-Boa tarde, tudo bem com a senhora? Podia-me fornecer os seguintes ingredientes, hoje vou ser o cozinheiro lá de casa.
-Boa tarde, sim e com sigo também. É para já aguarde um pouco já lhe vou entregar a sua lista.
Dei a lista de compras para esta velha senhora e enquanto sorria para a senhora reparei que na mesma pequena mercearia estava a Sara a fazer as suas compras, estava no fundo daquela pequena loja, mas estava tão distraída a ler rótulos dos produtos que nem deu por minha conta.
Fiquei a olhar para os seus cabelos sedosos com fios de estanho mais preciosos do que ouro e aquela pele de veludo tão macia e branca como as nuvens mais belas do Machu Picchu, o seu cabelo tinha uma luz natural tão forte como a chama grega do Olimpo, o corpo foi moldado por Hator inspirado pela Freia, foi-lhe dada a sensualidade de Afrodite e o poder de Hipólita.
Estava desarmado perante aquela divindade, que até mesmo o belo se curvava perante a sua beleza, tinha uma luz inexplicável, uma luz quente e apaziguadora que acalmava até os cantos mais escuros do meu coração, no meio destes pensamentos acabei por ignorar a senhora que estava a olhar fixamente para mim, tentei me recompor e questionei:
-Desculpe, estava distraído e nem dei conta que estava à minha espera e obrigado pela sua ajuda.
Paguei e sai daquela loja sem que a Sara me visse não queria parecer um louco ou mostrar um extremo interesse, gostava de tudo nela, mas queria manter o espaço que ela sempre teve, aliás, naquele momento não tínhamos nada e mesmo que tivéssemos respeitaria o seu espaço pessoal, quando cheguei a casa pousei as compras em cima da mesa porque estava ansioso para fazer “Forno Campestre” e verifiquei os ingredientes, a lista era a seguinte:
Forno Campestre
3 Batatas médias
2 Cebolas Médias
150 gramas de queijo
50 gramas de fiambre
50 gramas de paio york
1 garrafa de óleo
1 frasco de azeitonas
Comecei por cortar a cebola e a batata bem fina, comecei a fazer o molho de tomate com salsa e reservei-o numa tigelinha que a minha avó me tinha dado no natal. Peguei numa pequena forma metálica e coloquei 4 colheres de óleo na sua base, depois coloquei uma camada de batata e cobri-a com cebola, depois coloquei 8 colheres do molho de salsa e tomate e cobri-o com fatias de queijo, depois da camada com queijo coloquei uma camada de fiambre, cortei umas 8 ou 9 azeitonas e coloquei-as por cima do fiambre, de seguia cobri-a com paio york e duas camadas de queijo. Para finalizar coloquei uma azeitona no centro da forma para dar uma aparência mais aprazível. Coloquei-o no forno a 200º e esperei ansiosamente por aquele prato.
Sentei-me numa cadeira de madeira e no silencio da minha cozinha pensei de novo sobre a Sara, imaginei que ela estivesse sentada ao meu lado naquela mesa a espera comigo para jantarmos enquanto divagávamos nas nossas conversas e o templo fluía naturalmente, fazia planos para o fim de semana, gostaria que aquele café fosse o melhor que ela já tomou na vida, não apenas o café mas a melhor companhia que ela já teve na vida, era difícil mas eu estava disposto a tentar.
Senti um aroma que me deixou a barriga a dar horas, fui ver o forno e estava douradinho, o queijo estava da cor do sol e borbulhava e frigia lentamente no meio daquele calor, ao tirar subiu um fumo que tinha um cheiro muito bom, peguei numa faca para cortar o que cozinhei, a textura era a que pretendia, era como um bolo parecido com um lasanha, a textura era tão boa como o sabor e após comer, tive de tomar um banho, não era recomendado pelo povo tomar banho depois de comer mas eu gostava de tomar banho sempre antes de dormi, liguei o chuveiro e a água estava quente como a minha alma sempre que ouvia a voz da Sara, após o banho vesti o meu pijama e caí num sono profundo, não me lembro de ter sonhado mas foi um dia repleto de aventuras, mal sabia eu que no próximo dia seria bem mais agitado que o que tinha vivido naquele momento.
Rúben Baptista
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